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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Pequeno e o Grande Pianista - Parte 2

O Pequeno e o Grande Pianista
Parte 2
 (...) Nós o colocávamos na sala e ele ficava olhando o piano com os olhos molhados pelas lágrimas.
Papai tinha um corpo avantajado; seu peso era perto de noventa e cinco quilos e em menos de seis meses chegou a setenta e cinco quilos...
O médico nos aconselhou a contratarmos uma enfermeira para cuidar de papai, e nos sugeriu uma amiga sua que saíra do hospital há pouco tempo.
Thalita era enfermeira há sete anos; tinha um filho de quatro anos, o marido a abandonara e, quando a convidamos para cuidar de papai em tempo integral, pareceu reticente.
Apesar de precisar muito do emprego, temia pelo filho Daniel, a quem carinhosamente chamava de Dani; disse que não tinha com quem deixá-lo e não se tranquilizou nem quanto nós dissemos que não teria problemas se ela trouxesse consigo; ela disse que ele era um garoto especial...
Eu pensei que era uma forma carinhosa pela qual Thalita tratava ao filho; não imaginei que ele sofresse de Síndrome de Down.

Dani era um menino calmo e tímido, não falava com ninguém, além da mãe... Bastava colocá-lo diante da televisão, que ele ficava o dia inteiro assistindo; se ninguém oferecesse comida ou água, ele ficava o dia inteiro com fome e sede... Sem dizer uma palavra; o único problema era que ele começava a gritar pela mãe quando queria ir ao banheiro, mas as empregadas da casa foram orientadas a levá-lo ao banheiro, assim que ouvissem os gritos, de forma que papai, nem os escutava na maioria das vezes.
Já fazia oito meses que papai saíra do hospital e já começava a mostrar os primeiros sinais de melhora.
Com algum esforço, ela já conseguia dar algumas voltas pelo quintal, amparado por uma bengala; a babá já não mais o incomodava; já a depressão era ainda a sua única companheira... Papai perdera a alegria de viver... A música era a sua vida...; os movimentos da mão não, conseguira melhor em nada; apesar dos exercícios de fisioterapia, parecia que nunca mais voltaria a tocar... essa ideia a o martirizava ,e a dispensa do conservatório municipal fora mo golpe final ; estava acabado...

  
Papai se fechava cada dia mais , a amargura o estava transformando em uma pessoa dura e de difícil convivência ; as lembranças de uma infância alegre e divertida pouco a pouco foram sendo apagadas pelas constantes brigas , que a impaciência de papai provocava ; ninguém percebeu quando pouco a pouco os filhos foram diminuindo as visitas a papai , inclusive eu...
Não deixávamos faltar-lhe nada e cuidávamos de todos os seus interesses financeiros, mas bastava nos encontrarmos para terminar o encontro em discussão; era muito triste ver o homem amargo em que papai se transformara.
As únicas pessoas com que papai não brigava eram Thalita e Dani; até Maria nossa empregada, que trabalhava a dezoito anos em nossa casa pedira as contas.
Thalita teria que levar alguns exames até o medico particular de papai e pediu que dona Ana, a nova empregada, cuidasse de Dani que, dentro de no máximo meia hora ela estaria de volta.

Dani ficava sentado diante da televisão por horas, sem que prestasse a atenção a mais nada; talvez ele tenha visto alguém tocando piano na televisão e , vendo o piano na sala , resolveu imitar a cena da televisão, ou simplesmente foi movido pela curiosidade ; ninguém jamais saberá o que o guiou até o piano de papai .
O som chegou até a varanda; papai dormia sentado em uma cadeira de balanço; inicialmente pensou que o tempo retrocedera e estava de volta ao conservatório; mexeu os dedos da mão direita , mas os da mão esquerda ainda não tinham movimento... a dor da verdade foi substituída pela raiva .Quem ousaria mexer no seu piano?Seria sumariamente demitido e , levantando-se com dificuldade , foi até a sala e surpreso viu Dani martelando as teclas com os dedos .


—Você não sabe tocar, menino... E não deve mexer no meu piano.Cadê a sua mãe?
Dani olhou papai , com aquele olhar que as crianças desmancham o coração dos adultos e com um sorriso disse apenas :
—Me ensina a tocar ?
Os olhos de papai se encheram de lágrimas e a bengala caiu...acho que foi nesse momento que papai renasceu!
—Eu não posso filho...
—Pode sim, é fácil... e, pegando a mão de papai, Dani colocava-a no teclado tirando um som...Viu, é fácil!
—Não é assim tão fácil...e, pegando as mãos de Dani, as colocou nas teclas e ensinou-lhe a primeira nota...; papai falava animado e com segurança, não era mais nem sombra do homem amargurado que fora há minutos atrás.
Quando Thalita chegou do consultório do médico, ouviu risos na sala e se perguntou qual dos netos do patrão estava em casa e preocupou-se com o humor do patrão, que ultimamente detestava barulho.


(Autor: Marcio Marcelo do Nascimento Sena- Editora: Beco dos Poetas)





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