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terça-feira, 3 de agosto de 2010

ENTREVISTA COM O EDITOR DA WEB LIVROS, REYNALDO DAMAZIO


“A poesia acontece quando alguém desconfia da linguagem e tenta reinventá-la, achando que, com isto, pode mudar a própria realidade, ou a nossa compreensão dela. Às vezes dá certo.”
Autor da frase acima, Reynaldo Damazio, (São Paulo, 1963) trabalha como editor e escreve resenhas e artigos sobre literatura, faz parte do conselho editorial de “K – Jornal de Crítica” e dirige o site Weblivros.
Autor de vários livros importantes na literatura brasileira, sendo um deles de poesia “Horas Perplexas” vencedor em 2º lugar do prêmio Alphonsus de Guimaraens , participante de 3 antologias de renome,”Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil” (Landy, 2002)” juntamente com os amigos Claudio Daniel e Frederico Barbosa,” Paixão por São Paulo” e “Antologia comentada da poesia brasileira do séc. 21”..esse jornalista brasileiro e fã de Lima Barreto nos fala em sábias palavras sua trajetória literária entre divulgação de contos e poesias ao nosso site.

1- Como surgiu seu interesse por poesia, crítica literária e animador cultural?

R – O interesse por literatura vem de muito cedo. Ganhei uma coleção de contos dos irmãos Grimm, de Perrault e de Andersen de minha avó, ilustrada com bonecos de pano, e praticamente me alfabetizei com esses livros. Tenho alguns volumes da coleção até hoje. Meu pai também inventava histórias para me fazer dormir e ainda me lembro de algumas. Depois, com oito anos de idade, pedia a ele para comprar o jornal de domingo e ficava lendo aleatoriamente aquele calhamaço. Coisa de maluco! Fiz os primeiros textos com alguma finalidade literária na adolescência. Eram ruins, mas ajudavam no relacionamento com as garotas. A crítica literária surgiu de meu interesse por leitura e não foi uma coisa programada. Gosto de ler ensaios do mesmo modo que um romance, ou um livro de contos. Tudo é escritura. Hoje, penso que mais importante do que escrever livros é ler bem, com paixão e inteligência, em profundidade. Antes de publicar, um autor deve se preocupar em ler muito, o tempo todo, sem descanso. Ler é primordial. Por fim, o trabalho com animação cultural foi uma decorrência da minha ligação com livros e escritores. Digamos que seja um fetiche pessoal que transformei em meio de sobrevivência.

2- Em seu livro ”Nu entre nuvens” você usa a expressão “arremedo de tatibitate” quando escreveu isso, que esperava que o leitor interpretasse quando lesse?

R – Há sempre nos meus poemas uma dose de ironia crítica, com o mundo e com a linguagem. Mesmo quando estou falando do corpo feminino, da desilusão com os grandes projetos, dos meus filhos ou da vítima de uma bala perdida. Fazer poesia é lidar com os limites do dizer, da compreensão, da opacidade do real, das contradições da história, numa mistura bizarra de sensibilidade e cognição. A expressão que você cita na pergunta se refere às repetições das bobagens infinitas que são ditas e consagradas como se fossem verdades absolutas, mas pode ser também um bordão qualquer, uma frase de efeito, um slogan de publicidade, um jargão acadêmico, ou qualquer outra coisa que o leitor descubra. No contexto mais amplo do poema, falo do vazio que está na raiz de toda palavra, de todo pensamento, que é o abismo da significação.

3- Qual sua opinião sobre a “transição” do livro físico para o livro eletrônico, um substitui o outro ou se completam?

R – Acho legal a tecnologia como ferramenta para agilizar a comunicação e o acesso à informação, mas quando o livro impresso “acabar”, tenho certeza que termina com ele a nossa civilização. Pode ser que comece outra coisa, um outro processo, mas não estarei mais aqui para ver. Duvido que alguém leia “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, ou “Ulisses”, de James Joyce, integralmente num e-reader. A tendência será ler textos mais curtos e de menor complexidade, como a linguagem que se cristaliza na internet, em sites, blogs, twitter, msn etc. Vi recentemente uma versão eletrônica de “Alice no país das maravilhas”, de Carroll, cujos efeitos visuais não acrescentavam nada ao texto, além do movimento das ilustrações. Quero dizer que as leituras e releituras que fiz desse livro fantástico não dependeu de efeitos visuais ou externos, porque a qualidade textual é o que realmente importa. Os efeitos servem, por exemplo, para disfarçar um texto fraquinho e enganar o leitor inexperiente. Não quero parecer antiquado, mas um texto de Beckett ou de Drumonnd terá a mesma qualidade no papel ou noutro meio qualquer. Difícil é suportar a leitura prolongada de um texto complexo na telinha. Umberto Eco, Robert Danton e Roger Charter, entre outros, têm refletido sobre a importância da palavra impressa na formação da cultura.

4- Na sua interpretação, como a leitura pode levar poetas e aprendizes a tomar consciência do seu potencial criativo e transformador?

R – O escritor de verdade é antes de tudo um bom leitor. Ninguém se torna escritor sem antes ser um leitor exigente. É preciso ler grandes autores, grandes obras, de tempos e culturas diversos. Não sei se a leitura ajuda a tomar consciência do próprio potencial, mas certamente trará um aprendizado no manejo da escrita e uma visão crítica do mundo. O aprendiz de poeta ou de escritor deve ter consciência de seus limites. Para escrever um bom poema é imprescindível conhecer bem o gênero poesia.

5- Como editor como vê a divulgação de contos e poesias através da internet?

R – Uso diariamente a internet e o trabalho de produção editorial normalmente é realizado à distância. Além disso, a internet é um instrumento poderoso de divulgação, por seu alcance extraordinário. Pode ser útil tanto na divulgação de obras e autores, como nas vendas de longa distância e na democratização do acesso à literatura. É necessário, ainda, que mais pessoas tenham computadores e condições de navegar. Por outro lado, o acesso deve ser qualificado, crítico, inteligente. Tomando como exemplo o livro: não adianta você dar livros a alguém que não saberá o que fazer com eles. Por isso, a educação de qualidade também é essencial.

6- Você fez mestrado sobre a obra de Lima Barreto, qual das obras dele te inspirou?

R – Não concluí ainda a pesquisa. O romance “Triste fim de Policarpo Quaresma” causou um grande impacto quando o li no Ensino Médio. Tive uma professora fantástica que instigava a leitura e a discussão de autores importantes. Foi numa dessas aulas que descobri a poesia concreta, por exemplo. Lima Barreto é um dos precursores de nosso modernismo, ao lado do poeta Augusto dos Anjos, ainda que os modernistas o tenham ignorado completamente. Enfrentou uma barra pesadíssima com o alcoolismo, a pobreza, a loucura do pai e lutou contra o meio tacanho das elites do país. Tocou na ferida das desigualdades e do preconceito. Introduziu o pobre real na literatura brasileira e transitava com naturalidade da delicadeza humana à denúncia de nossas misérias sociais e políticas. Foi obscurecido pela figura grandiosa de Machado de Assis e por suas idiossincrasias pessoais, mas deixou uma obra fascinante, como invenção e como retrato de uma época de transformações agudas. Os contos de Barreto são originais e provocadores. O livro “Vida e morte M. J. Gonzaga de Sá” dialoga com os últimos romances de Machado. Muito do que se faz hoje na prosa brasileira vem de Lima Barreto.

7- No seu ponto de vista como está a Literatura Contemporânea atualmente?

R – Essa pergunta é muito ampla e de difícil resposta. No caso da literatura brasileira, creio que exista uma produção intensa, mas também uma grande dispersão. Na prosa, noto certo apego exacerbado ao real, especialmente à violência urbana e a solidão nas grandes cidades, mas sem muita ousadia formal e temática. Em poesia predomina um certo confessionalismo epigramático e uma obsessão por cenários exóticos, como se a paisagem fosse capaz de fundamentar o poético. Tenho lido com interesse poetas que lidam com a poesia como um problema, tanto na compreensão do real como na construção de uma linguagem de fato desestabilizadora. O poema que registra a satisfação narcisista do poeta com o próprio ego não me diz nada.

8- Seu site Weblivros publica resenhas, ensaios e entrevistas qual dessas tendências literárias provoca mais comentários dos leitores e por quê?

R – Os comentários e acessos são bem distribuídos, mas noto que chama mais a atenção o material relacionado a nomes consagrados. No entanto, os textos dos colunistas, por exemplo, têm muitos acessos e isso é constante, o que demonstra certo interesse por reflexões sobre literatura um pouco mais densas. Creio que ampliar os espaços para o comentário de literatura represente uma causa nobre e necessária nos dias de hoje. Essa foi a proposta do Weblivros desde o início.

9- Com sua obra “Horas Perplexas” você ganhou o 2º lugar no Prêmio Alphonsus de Guimaraens, a poesia desse escritor brasileiro é marcadamente mística e envolvida com religiosidade, o que suas poesias tem haver com o estilo literário dele?

R – Fiquei surpreso e honrado com o segundo lugar no prêmio da Biblioteca Nacional, mas minha poesia não tem nenhuma relação com a de Alphonsus de Guimaraens, ao menos que eu saiba. Conheço a poesia dele, mas não se trata de um autor que me cative e com o qual me identifique.

10- Com o advento da internet, o modelo de print on demand e a chegada de sites que publicam e comercializam livros facilitando ao autor independente a divulgação, comercialização e impressão dos próprios livros, surgiu uma nova “safra” de autores entre tantos, qual deles gostaria de fazer uma resenha de sua obra ou carreira literária e por quê?

R – Sobre os que estão começando, talvez seja muito cedo para avaliar. Conheço livros originalmente veiculados na internet que me decepcionaram bastante. O suporte não define a qualidade de um texto e a facilidade na circulação e na publicação também permite que muita coisa de qualidade duvidosa se espalhe por aí. Por isso me parece fundamental que a intensidade da leitura crítica seja proporcional à quantidade de publicações.
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