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terça-feira, 27 de julho de 2010

Entrevista com Claudio Daniel, editor, tradutor e jornalista brasileiro

Claudio Daniel, pseudônimo de Claudio Alexandre de Barros Teixeira, poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em São Paulo (SP), em 1962. Publicou os livros de poesia Sutra (1992) Yumê (1999) e Sombra do leopardo (2001) Publicou e participa de várias antologias, como "Jardim de Camaleões" e "Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil" (Landy, 2002), organizada em parceria com Frederico Barbosa, traduziu grandes nomes da literatura,organizou a Galáxia Barroca, Encontro de Poetas Latino-Americano...Enfim, com um perfil poético invejável, ele fala de sua extensa carreira literária para o Beco dos Poetas & Escritores.


1-Você acredita que o maior crítico literário é o tempo?

Sem dúvida. Baudelaire e Flaubert foram considerados autores imorais em sua época, tiveram obras censuradas, foram atacados por críticos de prestígio, como Saint-Beuve. Flaubert chegou a ser processado judicialmente, pela suposta obscenidade do romance Madame Bovary. No Brasil, críticos do prestígio de Sílvio Romero e Érico Veríssimo fizeram pouco caso de autores como Machado de Assis e Cruz e Sousa, e Wilson Martins colocou em segundo plano a obra de Guimarães Rosa, privilegiando Mário Palmério. Na década de 1930, o grande poeta brasileiro, segundo a crítica, não era Drummond nem Murilo Mendes, mas Augusto Frederico Schmidt, que hoje ninguém lê. A Poesia Concreta foi desprezada por muito tempo pela universidade e pela mídia, era chamada de “o rock and roll da poesia” pela revista O Cruzeiro. O que acontece na época atual, além da miopia crônica dos críticos da imprensa diária, que não têm formação teórica e senso estético para julgarem obras inovadoras, é uma tendência a se privilegiar amigos e grupos que ocupam posições de poder e a boicotar tendências estéticas experimentais, que desafiam os cânones apodrecidos. Com o passar do tempo, porém, tudo isso ficará para trás, e o que sobreviverá é a qualidade e não a bajulação. O tempo é o melhor dos críticos literários, como já disse uma vez Frederico Barbosa, porque não é suscetível a elogios, caprichos e sinecuras.


2- Como tradutor como foi a publicação de Jardim de Camaleões?

Recebi um convite de Samuel León, editor da Iluminuras, para organizar e traduzir uma antologia de autores latino-americanos da tendência conhecida como neobarroca, inaugurada na década de 1940 pelo cubano Lezama Lima e que atingiria o seu ponto de ebulição na década de 1970, com a obra de autores seminais como o argentino Nestor Perlongher, o uruguaio Roberto Echavarren e os cubanos Severo Sarduy e José Kozer, entre outros. Recebi o convite em 2000 e o livro foi publicado em 2004, com prefácio de Haroldo de Campos. Reuni poetas de diferentes gerações, desde os fundadores históricos até nomes bem recentes, que estrearam em livro na década de 1990, como o argentino Reynaldo Jiménez e o uruguaio Victor Sosa, além de incluir cinco autores brasileiros: Haroldo de Campos, Paulo Leminski, Horácio Costa, Wilson Bueno e Josely Vianna Baptista. Traduzir esses poetas não foi tarefa fácil, pelo uso excessivo de arcaísmos, neologismos, palavras de uso regional, citações em sânscrito e chinês, metáforas rebuscadas, entre outras dificuldades, mas fiquei satisfeito com o resultado, que foi o ponto de partida de outros trabalhos de maior fôlego que fiz no campo da tradução, como a antologia Íbis amarelo sobre fundo negro, com poemas de José Kozer, que saiu pela Travessa dos Editores.

3- O que é mais importante traduzir ou escrever e publicar sua própria poesia?

Acredito que não existe uma resposta definitiva para essa pergunta. De todo modo, sempre que traduzo, aprendo alguma coisa com o poema na língua original, e esse diálogo criativo acaba enriquecendo a minha própria poesia. De modo similar, meu trabalho poético deixa-me mais à vontade para traduzir, pois sou atento não apenas ao sentido literal, sobretudo à intenção estética do poeta. Uma boa tradução, a meu ver, é a que consegue se equilibrar de forma harmoniosa entre o som e o sentido.


4- Existe diferença no processo de criação de contos e no de uma poesia, como demonstra isso nas suas obras?
Para um autor que escreve apenas prosa de ficção, com certeza, há diferenças no processo criativo, pois o romancista, por exemplo, nem sempre está atento ao som de cada palavra de uma linha que escreve, pois está preocupado com a construção da narrativa. Já o poeta, quando escreve prosa, usa o mesmo rigor e o mesmo processo criativo aplicados em seus poemas, o que explica porque o livro de ficção de um poeta pode levar cinco anos para ficar pronto, como aconteceu com o meu Romanceiro de Dona Virgo. Para o poeta, não há conto, nem poema, nem romance, há imagens, sonoridades, invenção sintática e metafórica, enfim, há linguagem.

5- Como jornalista e poeta como descreve a poesia concreta e a poesia neobarroca nos dia de hoje?

São movimentos que já pertencem à história literária. A poesia concreta teve desdobramentos nas experiências que são feitas hoje por autores como Arnaldo Antunes e Ernesto de Melo e Castro nas mídias eletrônicas, e a poesia neobarroca, apesar de ter surgido há mais de meio século, ainda tem hoje autores criativos (e não epígonos), inclusive jovens brasileiros como Eduardo Jorge e Adriana Zapparoli.

6- Você já participou de várias Antologias, já pensou em fazer uma de sua obra poética, como seria?

O livro Figuras Metálicas – Travessia Poética(1983-2003), que foi publicado em 2004 pela editora Perspectiva, na coleção Signos,.dirigida por Augusto de Campos, é uma antologia dos meus quatro primeiros livros de poesia. É difícil para mim falar de meu próprio trabalho poético, então prefiro citar a “orelha” do livro, assinada por José Arnaldo Villar: “Claudio Daniel apresenta em Figuras Metálicas o registro de sua ‘travessia poética’, percorrida ao longo de vinte anos de labor criativo. Comparecem aqui poemas escritos entre 1983 e 2003, incluídos nos livros Sutra, Yumê e A Sombra do Leopardo, mais o inédito Pequenas aniquilações. Este conjunto de composições revela um autor com voz própria, singular e inquieta. Dialogando com a Poesia Concreta, o Neobarroco, o Simbolismo e o Oriente, realizou uma fusão onde são evidentes as imagens sonoras, que não raro perturbam ou dissolvem o sentido aparente em curiosas associações de termos (“Água-de-serpente para esquecer jamais esta música de peles”). Os poemas são reunidos em ciclos ou séries, como se fossem peças de um quebra-cabeças ou verbetes de uma enciclopédia imaginária. Aqui, as palavras não se curvam à função passiva de apenas retratar ou traduzir o mundo das coisas, mas constituem uma realidade própria, obsessiva. Cada poema é um organismo, com rigorosa concepção estrutural, que distancia-se da lógica linear, discursiva, por meio da elipse, da analogia e da colagem semântica. Este caminho de desfiguração dos vocábulos mimetiza a perda de sentido dos valores culturais em nossa época, regida pela loucura do mercado e da mídia, ao mesmo tempo que aponta para a criação de outras realidades, por meio da poesia.”


7-A publicação de poesia no Brasil parece ter aumentado e uma nova geração de poetas vem surgindo. Você acompanha essa produção?
Há muitos autores interessantes; para citar poucos nomes: Virna Teixeira, André Dick, Eduardo Jorge, Simone Homem de Mello, Leonardo Gandolfi, Adriana Zapparoli, Delmo Montenegro. Sairá em breve, pela Lumme Editor, uma antologia organizada por mim, intitulada Todo começo é involuntário: a poesia brasileira no início do século 21.

8- Nessa nova geração de poetas percebe alguma característica marcante?
A diversidade: há autores minimalistas, neobarrocos, poetas que trabalham com as mídias eletrônicas ou com a etnopoesia, afastando-se da herança já esgotada de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade – grandes poetas, mas que pertencem a outro século, e que precisam ser lidos hoje sem a intenção da cópia. É preciso buscar outros temas, outras vivências, outras linguagens.

9- Você faz pesquisas sobre poesia africana de língua portuguesa, um novo estilo literário vem aí ?
Tenho pesquisado especialmente a poesia angolana, e um primeiro resultado desse trabalho é a antologia Ovi-Sungo, Treze Poetas de Angola, que saiu há poucos anos pela Lumme Editor. Não sei dizer se surgirá um novo estilo daí, mesmo porque a poesia angolana é muito diversificada, há desde autores que trabalham com a poesia visual e multimídia até autores que reelaboram os temas folclóricos e outros que investem numa escrita hermética, próxima ao barroco, para citar apenas alguns casos. Gosto muito de autores como Arlindo Barbeitos, David Mestre, João Maimona, Abreu Paxe, que têm dicções fortes e personalíssimas.
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