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terça-feira, 24 de março de 2015

CONCLUINTE DA E.E. SALVADOR MOYA - EJA - ENTRA EM MEDICINA



CONCLUINTE DA E.E. SALVADOR MOYA - EJA - ENTRA EM MEDICINA

Após perder família em terremoto, haitiana vai fazer Medicina em Federal no Brasil

PAULOSALDANA
11 Fevereiro 2015 | 16:50

Quando a haitiana Patricia Gérard chegou a São Paulo, no início do ano passado, não sabia nada da língua portuguesa nem tinha conhecido ou referência no Brasil. Veio apenas com a determinação de realizar um sonho que não sentia muitas chances de concretizar no seu país: estudar para ser médica. Aos 23 anos, ela conta em bom português que foi aprovada em Medicina em uma universidade federal que criou um programa específico para estudantes do Haiti. Depois de formada, quer voltar para ajudar seu país.
Patricia decidiu ser médica após perder mãe e irmã gêmea no terremoto no Haiti. WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Patricia decidiu ser médica após perder mãe e irmã gêmea no terremoto no Haiti. WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Patricia vai estudar Medicina na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu (PR) – ela disputou a vaga com outros 24 haitianos inscritos.  A Unila tem quase 60% dos alunos de dez países diferentes, mas nenhum era do Haiti.
O sonho de Patrícia nasceu depois de uma tragédia. Há cinco anos, completados no último dia 12, um terremoto devastou seu país. Entre as cerca de 250 mil vítimas do desastre, ela perdeu a mãe, a irmã gêmea e outros oito parentes.“Ver tanta gente sofrendo e não poder fazer nada me convenceu a ser médica”, diz ela. “Eu poderia ter salvo a vida de muita gente”, completa.
Na carta que entregou à Unila, como parte do processo seletivo pelo qual passou, Patricia contou sua angustia de não ter feito mais pelas vítimas do terremoto. “Qualquer conhecimento de enfermagem me ajudaria, porque eu também ajudaria aos médicos.”
O terremoto levou o país ao colapso. Sem condições de haver socorro para tantos soterrados e feridos, Patrícia permaneceu durante 15 dias levando água e comida para a mãe que estava com parte do corpo soterrada. Quando ela finalmente pode ser hospitalizada, não resistiu e morreu após saber que uma das filhas estava morta.
Vivendo apenas com o pai, motorista, e mantendo contatos com um irmão que é padre, a jovem foi trabalhar na embaixada do Brasil em Porto Príncipe, onde sempre viveu. Fluente em francês, auxiliava na tradução para o creole – língua nativa do país. Em 2012, conseguiu visto para o Brasil mas só dois anos depois fez a mudança, reforçando um fluxo crescente de imigração.
No ano passado, 8,9 mil haitianos chegaram ao Brasil, segundo o Ministério da Justiça. São 19,7 mil haitianos no Brasil em quatro anos – 5,4 mil estavam em São Paulo, de acordo com dados de setembro passado.
Patricia está entre os 13 haitianos auxiliados pela Educafro que vão estudar na Unila. WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Patricia está entre os 13 haitianos auxiliados pela Educafro que vão estudar na Unila. WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Assim que começou a aprender português em curso supletivo na zona sul da cidade, Patrícia já ouviu algumas palavras desanimadoras. “Muita gente falava que pobre e negro não estuda Medicina no Brasil, mas vim determinada”, disse. Mas a realidade, de fato, é desanimadora. Pesquisa revelada pelo Estado no dia 3 de fevereiro mostra, por exemplo, que somente 0,9% dos cerca de 3 mil novos médicos formados no ano passado no Estado de São Paulo são negros.
Para se sustentar, Patrícia trabalhou em uma gráfica. Como fala inglês e espanhol, além de francês e creole, chegou a receber convite para um trabalho que pagava melhor. Mas recusou para não atrapalhar os horários da escola. “Ela veio com o objetivo de estudar, se esforçou e conseguiu”, diz a aposentada Lucy José Rodrigues, 68 anos, a quem Patrícia chama de mãe. Lucy praticamente adotou a estudante em São Paulo. “Conheci a Patrícia pela minha sobrinha. É muito educada, super esforçada. Estou muito feliz.”
A haitiana participou do processo seletivo da Unila com a ajuda da Educafro, ONG que luta pela inclusão educacional da população negra. “Precisamos de mais negros nas universidades”, repete frei David Santos, da Educafro. O plano da Unila era reservar aos haitianos uma vaga para cada um dos seus 29 cursos. Mas foi possível ampliar a inclusão porque sobraram vagas em carreiras menos concorridas. No total, foram 82 representantes do Haiti aprovados neste ano.
Os haitianos irão contar com a mesma assistência estudantil oferecida aos demais estudantes que apresentam vulnerabilidade socioeconômica. Terão alojamento da Unila, auxílio alimentação no valor de R$ 300,00 e transporte no valor de R$ 55.
Além de Patrícia, a Educafro auxiliou outros 12 estudantes do Haiti que foram aprovados em outros cursos na Unila. A ONG luta por verba para a passagem para eles de São Paulo a Foz do Iguaçu. “A assistência estudantil está garantida, agora estamos nos esforçando para levá-los até lá”, diz frei. A entidade criou um site para quem quiser colaborar: http://oesta.do/1APlUe1

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