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quinta-feira, 19 de março de 2015

Salvador é uma espécie de Terra do Nunca

CONTEXTO

Sobre o autor
Jorge Amado pertence à segunda geração da literatura modernista brasileira, identificada como aquela que abordou a temática nordestina. No caso do escritor baiano, essa temática foi focalizada sob o prisma do realismo socialista, que aplicava à visão artística da realidade os princípios do Marxismo, do qual o autor foi adepto, chegando a eleger-se deputado pelo Partido Comunista Brasileiro. Algumas de suas principais obras foram adaptadas para a televisão, é o caso de “Tieta do Agreste”, “Gabriela, Cravo e Canela” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Pela grande contribuição literária, Jorge Amado ganhou o Prêmio Camões em 1994. 
Importância do Livro
Capitães da areia estabelece uma analogia entre a aventura que é narrada e a mensagem política que se pretende transmitir ao leitor. Possui com isso, um sentido didático que é próprio do tipo de literatura que o romance representa: aquele que é voltado para o trabalho de conscientização política. No âmbito da literatura, Jorge Amado foi um dos primeiros a abordar a questão dos menores de rua de uma perspectiva social e não simplesmente policial.
Período histórico
Quando o romance foi publicado, em 1937, autoridades baianas queimaram exemplares em praça pública. O episódio dá o tom do clima político da época, com o início da ditadura getulista do Estado Novo a repressão começava a mostrar as suas garras.

ANÁLISE

O livro se inscreve na categoria do romance de aventuras, com a narrativa estruturada em uma sucessão de episódios vividos pelo bando de garotos, que vão desde ações criminosas, como roubos a residências, até a recuperação de uma imagem de candomblé apreendida pela polícia. 
Muito do livro faz pensar em Peter Pan, personagem de J. M. Barrie. O armazém em Salvador é uma espécie de Terra do Nunca, onde só vivem meninos abandonados, e o líder é homônimo: Peter = Pedro. Pode-se propor ainda a semelhança com Robin Hood, que roubava dos ricos (as casas chiques de Salvador) para distribuir entre os pobres (os próprios membros do bando). A semelhança de nomes do melhor amigo do líder também pode ser relacionada, Little John, isto é, Pequeno João, na narrativa inglesa é um apelido irônico, já que se refere a alguém de estatura tão elevada quanto a de João Grande do romance de Jorge Amado. 
Pedro Bala possui muito do herói romântico: valentia, coragem e capacidade de se sacrificar pelo grupo. Mas talvez fosse melhor vê-lo como mais um anti-herói da nossa literatura, já que se dedica a crimes, chegando em uma passagem do romance a estuprar uma garota. Outra marca forte do modelo romântico é a figura de Dora, tanto por sua concepção idealizada, quanto pelo final triste da morte.
Porém, de mãos dadas com a ficção está a realidade baiana, evidenciada em traços como o preconceito das elites para com os meninos, as greves de trabalhadores, a ação repressora da força policial e, elemento bastante realçado na obra, o sincretismo religioso, que mistura referências católicas a ritos afro-brasileiros. O esforço de conscientização do leitor é evidente na obra de Jorge Amado, sendo conduzido com a perícia de um grande contador de histórias, criador de narrativas envolventes. 
Os adultos participam da narrativa, divididos em dois grupos bem distintos. De um lado, aqueles que rejeitam os meninos: as beatas, os policiais e todos aqueles ligados aos espaços repressivos do reformatório e do orfanato. De outro lado, os cúmplices, como o amigo capoeirista Querido-de-Deus, o padre João Pedro e Don’Aninha, mãe-de-santo.
A simpatia do narrador pelos Capitães da Areia é bastante evidente. Ele os vê como vítimas de uma sociedade injusta, aproximando-os da condição de marginalizados, na qual se identificam com as classes trabalhadoras. O resultado dessa aproximação é sugerido pela trajetória do líder Pedro Bala: conforme cresce, toma consciência da realidade à sua volta, terminando por integrar-se à luta política. Menino órfão, Pedro encontra uma família na revolução socialista – ideal político do autor e explícito no livro.

PERSONAGENS

- Pedro Bala: chefe dos Capitães da Areia, descobre que o pai foi morto durante uma greve sindical. Termina o romance como líder socialista.
- Dora: única mulher do grupo, é namorada de Pedro Bala e vista com mãe pelos outros meninos.  
- João Grande: notável pela força física e pela obediência que devota a Pedro Bala. É quem protege os novatos do bando. 
- Professor: menino culto e pintor de talento, era o responsável por planejar os roubos do bando. 
- Sem-Pernas: garoto coxo, que manifesta ceticismo e amargura. Era muito utilizado nos assaltos para enganar os moradores das casas.
- Gato: o sedutor do grupo, participava de planos arriscados e tinha um caso com Dalva, uma mulher da vida.
- Pirulito: menino que, aos poucos, descobre a religião. Pratica apenas os roubos necessários à sobrevivência. 
- Boa-Vida: personagem marcada pela malandragem e pela capacidade de sacrifício.
- Volta-Seca: de origem nordestina, torna-se cangaceiro ao sair do bando.
- Padre José Pedro: religioso que manifesta genuíno interesse pelos Capitães.
- João de Adão: líder operário, o estivador conheceu o pai de Pedro Bala e contou ao menino como foi a sua morte.
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